Thursday, May 28, 2009


ontem era carmem. o senhor de óculos se aproximou pediu a caixa de fósforo emprestada. apenas um pretexto pra perguntar se não se conheciam. respondeu, com a carranca típica segurando a taça de martini entre os dedos, que devia estar se confundindo com outra pessoa. o senhor, quase careca, vestido de preto e com uma cruz no meio do peito, insistiu e a não carmem permaneceu com a mesma expressão. o martini acabou, o show antigo que passava na TV bicolor cessou, a cadeira estava quente e a companhia nunca chegou.
antes de ser carmem alguém a reconheceu. seus olhos vermelhos condenavam o martírio do dia. a conversa que não tinha sentido a fez ficar em pé com a mão na cadeira. não apertou a mão, não sorriu, não fez questão e pensou 'ainda bem que reparou'. era dia de martini e não gostava de ser incomodada. ficou divagando no pensamento como alguém tem a capacidade de parar outra pessoa na rua e perguntar banalidades. a bebida não é justificativa e como resposta quase soltou uma. respirou e pensou que não havia necessidade. o tom baixo, sério, objetivo e monossilábico fez com que o senhor, de camisa cor de goiaba, exalando cheiro de suor com cerveja, se colocasse no devido lugar, a duas mesas da dela.
nem assim ele deixou de bisbilhotar, de rabo de olho, a conversa alheia. era réporter, se dizia tal. para ela, que ontem foi carmem, não era nada além de um senhor no ostracismo dos bares da pequena vila. o cheiro enojou 'carmem' que não tirou os olhos da tela enquanto apreciava seu martini.
'mais um por favor' e assim encerrou a noite.


Tuesday, May 12, 2009



passava a mão na calça jeans como quem espera o tempo acabar e poder ir embora. impaciente. a cerveja desceu mais que redonda, parecia mesmo uma correnteza e que a garganta era uma grande queda d'água. a música não agradava o gosto da mesa, que variava entre diferentes estilos. mas o motivo de todos estarem reunidos era outro e não o som ou o álcool. o olhar buscava a pessoa ao lado, a pessoa ao lado não buscava nada com o olhar. a mão apertava a pessoa ao lado, passeava pelas pernas, costas, pescoço. a pessoa ao lado estática, amassando o barro em conversas já desgastadas. estava diferente. seria o frio? a música? a cerveja devidamente gelada? ou a presença da pessoa ao lado? não sabia o que pensar e preferiu parar de buscar respostas. o beijo demorado, carinhoso e molhado deixou um arrepio ao final e a vontade de ir ao banheiro. não dava pra entender. era melhor ficar ou ir?
no dia seguinte... se despediu, pegou a estrada e foi viver uma vida diferente.
voltou depois de uma temporada e nenhum sinal, 'por enquanto' - pensava. amanhã era o dia de fazer aquela ligação, entregar os pertences, dar um abraço, se for o caso, levar aquele cheiro pra casa, que impregna na roupa e no nariz, e ver se algum rumo a coisa vai tomar. hoje o dia era de aguardar e conter os pensamentos e a vontade de falar 'boa noite'.